Sábado, 12 de Julho de 2008

Regra de Santo Agostinho




REGRA PARA OS SERVOS DEUS

Abertura

O núcleo essencial da Regra: o amor

1. Antes de tudo, irmãos caríssimos, amai a Deus e depois ao próximo, pois são estes os principais mandamentos que nos foram dados.

2. Eis a seguir as normas que vos mandamos observar, a vós que formais uma Comunidade Religiosa.

Capítulo I

O ideal dos primeiros cristãos: a comunhão

Comunhão de coração

3. O motivo principal pelo qual vos reunistes em Comunidade[1] é este: viver na casa em perfeito acordo,[2] não tendo senão uma só alma e um só coração,[3] voltados para Deus.

Comunhão de bens

4. E não chameis nada de próprio, mas entre vós tudo seja comum. Vosso Prior distribua a cada um alimento e roupa,[4] não de uma maneira igual para todos, pois nem todos tendes a mesma saúde, mas antes a cada um conforme a sua necessidade. É assim, de fato, que ledes nos Atos dos Apóstolos: "Eles tinham tudo em comum e cada um recebia conforme a sua necessidade" (At 4,32.35).

5. Aqueles que, entrando na Vida religiosa (lit.: no mosteiro), possuíam alguma coisa, queiram de boa vontade colocar seus bens em comum.

Os pobres: conservem-se humildes

6. Por sua parte, aqueles que nada tinham, não busquem na Vida Religiosa aquilo que nem fora podiam ter. Entretanto, não se lhes negue aquilo de que precisam, ainda que a pobreza de antes nem mesmo o necessário lhes pudesse garantir. Somente não se considerem privilegiados por terem encontrado na Comunidade a comida e a roupa que fora não podiam ter.

7. Igualmente, não se tornem presunçosos pelo fato de viverem agora na companhia de pessoas das quais anteriormente nem ousavam se aproximar. Mas antes elevem para o alto o coração e não busquem as vaidades da terra,[5] para que não aconteça que a Vida Religiosa seja aproveitosa apenas para os ricos e não para os pobres, na medida em que aí os ricos se humilham enquanto os pobres se exaltam.

Os ricos: tornem-se humildes

8. a) Por sua vez, os que antes gozavam de uma certa posição social[6] não desprezem os irmãos que entraram nesta santa sociedade vindo de uma condição humilde. Pelo contrário, encontrem motivo de glória, não no status social dos parentes ricos, mas na convivência com os irmãos pobres.[7]

b) Também não devem se gabar por terem trazido para a Vida comum algo de seus bens. E nem achem maior motivo de orgulho por verem suas riquezas partilhadas na Comunidade em vez de serem desfrutadas fora.

c) Na verdade, qualquer outro vício atua nas más ações, levando a praticá-las. A soberba, porém, afeta até mesmo as boas ações, a fim de pervertê-las.

d) E que adianta despojar-se dos bens para dá-los aos pobres e fazer-se pobre, se a alma, na sua miséria, se torna mais orgulh

osa em desprezá-los do que em possuí-los?[8]

Conclusão: união de todos em Deus

9. Portanto, viveis todos em união de alma e de coração[9] e honrai uns aos outros a Deus,[10] de quem vos tornastes templo.[11]


Capítulo II

A prática da oração

10. Sede perseverantes na oração,[12] segundo as hora

s e os tempos estabelecidos.

11. O lugar de oração seja usado apenas em função daquilo para o qual foi feito e do qual tira o nome. Se, portanto, alguém, dispondo de tempo, quiser orar também fora das horas marcadas, não seja impedido por quem quisesse fazer aí qualquer outra coisa.

12. Quando estais orando a Deus com salmos e cânticos,[13] repassai no coração o que proferis com os lábios.

13. E cantai apenas o texto destinado ao canto. Aquilo, porém, que não é feito para o canto, não se cante.

Capítulo III

Pobreza: vida sóbria

Frugalidade no comer e no beber

14. a) Domai vossa carne[14] com jejuns e abstinência no comer e beber. Mas isso se faça na medida em que a saúde o permitir.

b) É possível que alguém não possa jejuar até a tarde. Não tome então alimento algum fora da refeição do meio-dia, exceto se estiver doente.

15. Do início ao fim da refeição, escutai, sem barulho e sem protestos, a leitura de costume. Assim, não somente vossa boca se ocupe tomando alimento, mas também os ouvidos, sentindo fome da Palavra de Deus.[15]

Respeitar a capacidade de cada um

16. Pode acontecer que os de constituição mais delicada, devido à sua vida precedente, sejam tratados com alguma consideração na parte da comida. Nesse caso, os outros, mais robustos, devido a um outro hábito, não se importe

m com isso e nem julguem isso uma injustiça. Nem tampouco considerem aqueles mais felizes pelo fato de receberem uma comida diferente, antes se alegrem consigo mesmos por gozarem de uma saúde melhor.

17. a) Assim, pois, pode-se fazer alguma concessão quanto à comida, roupa, cama e cobertas àqueles que provêm de um padrão de vida mais abastado. Se isso ocorrer, os outros, que não recebem o mesmo tratamento, por serem mais robustos e por isso mais afortunados, levem bem em conta o quanto aqueles desceram de nível ao passarem de sua vida de antes à Vida Religiosa, muito embora não cheguem ao nível de sobriedade dos mais fortes.

b) Nem todo o mundo deve pretender que se concede somente a a

lguns, pois se isso acontece não é questão de privilégio, mas de tolerância. Desta maneira, se evita esta perversão detestável: que na Vida Religiosa os ricos se empenham o mais que podem, enquanto os pobres se tornam mais exigentes.

Comportamento na doença

18. a) Quanto aos doentes, sigam uma dieta mais restrita, de tal modo que seu estado não se agrave.

b) Depois da doença, devem ser tratados de tal modo

que se restabeleçam o quanto antes. E isso vale também para os que provêm de uma condição extremamente pobre. É como se a enfermidade recente lhes conferisse os mesmos direitos que, aos ricos, seu antigo teor de vida.

c) Entretanto, quando tiverem recuperado já as forças, voltem logo à sua vida normal, de resto, sempre preferível. Pois, para o Servo de Deus, uma vida é tanto mais conveniente quanto menos exigente. Nem é bom que, uma vez restabelecidos, o desejo de conforto os mantenha escravizados ao regime especial que a própria doença justificava.

Antes, considerem-se interiormente tanto mais ricos quanto mais resistentes na austeridade de vida. Na verdade, é melhor precisar menos do que possu

ir mais.[16]

Capítulo IV

Castidade: a d

isciplina do olhar

Discrição no comportamento em geral

19. Vosso modo de vestir não desperte a atenção. Igualmente, não vos preocupeis em agradar pelo traje,[17] mas sim pela conduta.

20. Quando saís de casa, andai juntos e juntos ficai quando chegardes ao vosso destino.

21. Andando, ficando parados ou fazendo qualquer gesto, nada haja em vós que possa chocar a vista de alguém, mas somente o que convém a vosso e

stado de consagrados.[18]

Olhar limpo

22. a) Vossos olhares, ao se depararem com alguma mulher, não se fixem nela. Sem dúvida, quando saís, não estais proibidos de ver mulheres. Agora, desejá-las ou querer ser por elas desejado, eis o que é reprovável.[19]

b) Efetivamente, não é apenas pelo contato ou pela paixão, mas ainda pelo olhar, que se desperta a concupiscência do homem pela mulher e v

ice-versa.

c) Nem digais que tendes pensamentos puros se vossos olhares são impuros. Pois olhar impuro denuncia um coração impuro.

d) Quando então dois corações, mesmo sem palavras, pela simples troca de olhares, revelam um ao outro o desejo impuro e, cedendo ao estímulo da carne, se deleitam em seus recíprocos ardores, embora os corpos permaneçam inviola

dos, é a própria castidade que desaparece do comportamento.

Quem vê é visto

23. a) Além disso, aquele que detém seu olhar numa mulher e se compraz com o olhar dela, não se iluda pensando que, enquanto vê, não está sendo visto por ninguém. Está sendo visto, sim, e mesmo por quem nem suspeita.

b) Mas seja: ainda que este seu comportamento fique escondido e não seja notado por ninguém, como se haverá diante d'Aquele que escruta do alto e ao qual nada pode ficar oculto?[20] Pensará por acaso, que Ele não vê,[21] por ser tanto mais paciente em ver quanto mais sapiente?[22]

c) É a Este que o bom Religioso há de temer desagradar,[23] de modo que não busque agradar erradamente uma mulher. Fique bem ciente de que Ele vê tudo, e assim não olhará para uma mulher com maldade. De fato, é justamente ness

e ponto que a Escritura recomenda o temor de Deus quando diz: "O Senhor tem em abominação o olhar cobiçoso" (Pr 27,20: LXX).

Conclusão: guardai-vos que Deus vos guardará!

24. Portanto, quando estais juntos na Igreja e em qualquer outro lugar onde se acham mulheres guardai-vos mutuamente a castidade. Pois Deus, que habita em vós,[24] vos guardará também desta forma: servindo-se de vós.

A correção fraterna

«Repreende-o entre tu e ele» (1º passo)

25. Caso tiverdes notado em algum de vós essa petulância no olhar de que acabei de falar, admoestai-o imediatamente, para que o mal, apenas iniciado, não se desenvolva, mas antes seja prontamente corrigido.[25]

«Toma contigo um ou dois a mais» (2º passo)

26. a) Mas, se depois da correção ou em qualquer outro dia, vós o virdes recair na mesma falta, quem vier a percebê-lo deve dar o sinal, pois se trata de um ferido que precisa de tratamento. Inicialmente, porém, faça-o saber a um segundo ou terceiro, para que, pelo testemunho de dois ou três, ele possa ser convencido de seu erro e, com a adequada severidade, ser levado a corrigir-se.[26]

Quando o amor parece maldade...

b) Nem vos julgueis maus, ao assinalardes um caso assim. Ao contrário, sem culpa certamente não seríeis se, calando, deixais vossos irmãos se perderem, quando, ao invés, falando, podeis corrigi-los.

c) De fato, se um irmão teu tivesse no corpo uma chaga que quisesse ocultar por medo do tratamento, não seria teu silêncio mostra de crueldade e tua fala sinal de misericórdia?

d) E não é muito maior tua obrigação de informar sobre um irmão que está correndo um perigo bem maior, que é a gangrena do coração?

Recurso ao Prior (passo intermédio entre o 1º e o 2º)

27. a) Entretanto, se o culpado, embora advertido privadamente, não se mostrar disposto a se emendar, então é ao Prior que se deve avisar, mas isso antes ainda de designá-lo a outros, capazes de convencê-lo, se vier a negar. De fato uma repreensão mais secreta da parte do Prior poderá talvez evitar que os outros venham a saber de sua falta.

«Diga-o à Comunidade» (3º passo)

b) Agora, se o culpado negar, então, contra o dissimulador, há de se usar o depoimento de outros. Assim, já agora perante todos, ele será, não apenas argüido por uma testemunha, mas ainda convencido de erro por duas ou três.[27]

O amor que castiga

c) E uma vez reconhecido culpado, tal Religioso deverá se submeter à pena salutar, determinada a critério do Prior ou ainda do Sacerdote encarregado da Comunidade.

d) Se recusar cumpri-la e assim mesmo não queira ir-se embora por própria iniciativa, seja expulso da vossa Comunidade.[28]

e) Isso também não é sinal de crueldade, mas de amor, pois assim se evita que um contágio pestífero leve muitos outros à ruína.[29]

Procedimento de validade geral

28. a) E tudo isso que eu disse a respeito da modéstia do olhar, deve ser cuidadosa e fielmente observado também quando se trata de qualquer outra falta, seja para descobri-la, impedi-la, revelá-la, prová-la ou puni-la.

b) Mas tudo seja sempre feito com amor às pessoas e ódio aos vícios.

Caso de ligação oculta

29. a) Quem, por sua vez, estivesse tão adiantado no mal a ponto de receber, às escondidas, cartas ou pequenos presentes, de uma mulher, se o culpado o reconhecer espontaneamente, seja perdoado e ore-se por ele.

b) No caso, porém, em que for descoberto e vier a ser convencido de falta, seja punido com severidade, a juízo do Sacerdote ou do Prior.

Capítulo V

O uso dos bens e o cuidado do corpo

Roupas em comum, o quanto possível

30. a) A respeito da roupa, tereis tudo em comum, sob os cuidados de um ou dois ou quantos bastem para conservá-las, de modo que sejam preservadas da traça. E assim como vos alimentais de uma única despensa, assim vos vestireis de um só guarda-roupa.

b) E o quanto for possível, não dependa de cada um decidir que roupa usar nas diferentes estações ou se vai receber as mesmas vestes de antes ou as que um outro tenha usado. Basta que não se negue a ninguém o que lhe for necessário.[30]

c) Se nessa distribuição surgirem disputas e murmurações,[31] como quando alguém se queixa por ter recebido uma roupa mais gasta que a precedente, ou julga inconveniente se vestir como um outro irmão se vestia, podeis então provar quanto vos faz falta o santo hábito do coração, vós que pelo hábito do corpo fazeis tanta questão.

d) De todos os modos, se, por tolerância à vossa fraqueza, vos for dado usar as mesmas roupas que tínheis deposto, guardai-as, contudo, no mesmo lugar e sob a responsabilidade dos mesmos encarregados.

O bem comum acima do privado

31. a) Igualmente, que ninguém trabalhe para si próprio, mas cada um de vós trabalhe em favor de todos. E nisso ponha mais aplicação, constância e zelo do que se trabalhasse em benefício pessoal.

b) De fato, a amor, conforme está escrito, "não busca seu interesse" (1Cor 13,5). Isso significa que o bem comum deve se antepor ao bem particular e não o bem particular ao comum.

c) E, assim, podereis medir vosso crescimento pelo modo com que vos preocupais com o interesse comum, colocando-o acima de vosso interesse particular.

d) Desta sorte, em todas as coisas que usamos em nossas necessidades passageiras, há de sobressair a única que permanece - o amor.[32]

A comunhão de bens é sem exceção

32. a) Por conseguinte, também no caso de uma pessoa trazer, para seus filhos ou parentes mais próximos que vivem na Comunidade, algo, como uma roupa ou qualquer outra coisa, ainda que tida por necessária, tal objeto não deve ser recebido às escondidas, mas seja antes colocado à disposição do Prior, para que, posto em comum, seja dado a quem precisar.[33]

b) Por isso, se alguém guardar escondido um objeto que lhe foi dado, seja punido como por furto.

Normas relativas à higiene e à saúde em geral

33. Vossas roupas sejam lavadas por vós mesmos ou então por gente de profissão, a critério do Prior. Assim se evitará que as almas se manchem interiormente pelo desejo exagerado de asseio exterior.

34. a) No que toca ao banho, enquanto se impõe por razões de doença, não deve ser negado. Mas faça-se isso sem discussões, segundo prescrição médica.

b) Por isso, se alguém reluta, faça, por ordem do Prior, o que deve ser feito em benefício da saúde.

c) Ao contrário, se alguém busca os banhos sem que lhe convenham, não se satisfaça seu capricho. Pois às vezes se considera proveitoso o que é apenas agradável, embora na verdade seja prejudicial.

35. a) Enfim. dê-se, sem hesitar, crédito ao servo de Deus quando se queixa de algum mal numa parte do corpo, mesmo que o mal não resulte evidente.

b) Mas se não existe certeza de que, para se curar, seja realmente eficaz o tratamento que gostaria de fazer, então consulte-se o médico.

36. a) Aos banhos públicos e também aonde for preciso ir, vão pelo menos dois ou três.

b) E aquele que tem necessidade de sair, saia com os companheiros que o Prior designar e não com aqueles que ele bem quiser.

Os serviços comunitários

37. O cuidado dos doentes, dos convalescentes e dos que sofrem alguma indisposição, mesmo sem febre, seja confiado a uma só pessoa. Esta deve retirar pessoalmente da dispensa o que julgar necessário em cada caso.

38. Os que foram indicados como responsáveis da dispensa, do guarda-roupa e da biblioteca, sirvam, sem murmurar, a seus irmãos.

39. Quanto aos livros, haja uma hora certa todos os dias em que podem ser pedidos. Quem pedir fora de hora, não seja atendido.

40. Porém, roupas e calçados dêem-nos, sem tardar, os responsáveis aos que, por necessidade, fizerem o pedido.

Capítulo VI

O perdão fraterno

Prevenir as ofensas

41. Discussões - ou não surgiam entre vós[34] ou se acabem o quanto antes. De outro modo, a ira crescendo se torna ódio,[35] transformando o cisco em trave[36] e tornando a alma homicida. É assim que ledes: "Quem odeia seu irmão é um homicida" (1Jo 3,15).

Dar e receber o perdão

42. a) Se alguém ofender o outro com insultos, palavras maldosas ou acusações graves,[37] lembre-se o culpado de dar, o quanto antes, satisfação de seu ato.

b) O ofendido, por sua vez, perdoe sem recriminações.

c) Se a ofensa for recíproca, o perdão deve ser também recíproco. E isso de acordo com vossas próprias orações,[38] que repetis tão freqüentemente e que, por isso mesmo, devem ser tanto mais sinceras.

Dificuldades em perdoar

d) Melhor é quem, irascível por temperamento, é solícito em pedir desculpas a quem reconhece ter ofendido, do que aquele que, tardo em se irritar, mais dificilmente se dobra ao pedido de perdão.

e) Quem negar seu perdão ao irmão não espere receber os frutos de sua oração.

f) Mas aquele que nunca quer pedir perdão ou não o faz de coração,[39] sem razão vive na Comunidade, ainda quer não chegue a ser expulso dela.

Conclusão: a boca que fere, cure!

g) Portanto, cuidai-vos das palavras ásperas, que se porventura vos saírem da boca, não vos custe tirar os remédios da mesma boca que produziu as feridas.

Caso um formador se exceda...

43. a) Entretanto, quando, ao repreender os mais novos, as exigências da disciplina vos levem a usar palavras duras, não se exige de vós, mesmo com a consciência de vos terdes excedido, que lhe peçais perdão, pois, deste modo, se evita que um gesto de excessiva humildade enfraqueça, aos olhos dos que devem estar submissos, a autoridade da direção.

b) Contudo, pedireis perdão ao Senhor de todos, o qual sabe com quanto afeto amais aqueles que talvez repreendais além da medida. Pois a amor entre vós não deve ser carnal, mas sim espiritual.

Capítulo VII

Autoridade e obediência

O dever da obediência

44. a) Deve-se obedecer ao Prior[40] como a um pai, com o respeito que lhe é devido, para que, na pessoa dele, não se ofenda a Deus.[41]

b) E isso vale ainda mais em ralação ao Sacerdote que tem a responsabilidade de toda a Comunidade.

Os deveres da autoridade

45. a) Compete, em primeiro lugar, ao Prior fazer observar todas essas normas. Não descuide por negligência as eventuais infrações, mas procure emendá-las e corrigi-las.

b) Refira, contudo, ao Sacerdote, que tem maior autoridade entre vós, tudo o que ultrapassar seus meios e suas forças.

Como exercer a autoridade

46. a) Quanto propriamente ao que preside à Comunidade, não busque sua satisfação em dominar com poder, mas sim em servir por amor.[42]

b) A honra diante de vós o ponha em lugar elevado; o temor diante de Deus o ponha sob vossos pés.[43]

c) Mostre-se para todos exemplo de boas obras.[44]

d) Modere os inquietos, console os tímidos, acolha os fracos, seja paciente para com todos.[45]

e) Observe de bom grado a disciplina. Faça-a respeitar.

f) E se bem que uma coisa e outra sejam necessárias, procure antes fazer-se amar do que temer.

g) Além disso, tenha sempre presente que deverá prestar a Deus contas de vós.[46]

Obediência é misericórdia

47. a) Por isso, vós, obedecendo com mais empenho, estareis dando prova de misericórdia não só para convosco, mas também para com ele próprio.[47]

b) Pois, entre vós, quanto mais alta é a posição, tanto maior é o perigo.

Capítulo VIII

A prática da Regra

Espírito com que se há de observar a Regra

48. Conceda-vos o Senhor observar todas essas prescrições com disposições de amor, como enamorados da beleza espiritual[48] e exalando, através de vossa boa convivência, o bom perfume de Cristo,[49] não como escravos debaixo da lei, mas como pessoas livres, estabelecidas sob a graça.[50]

Modo concreto de usar a Regra

49. a) Este livreto seja para vós como um espelho em que possais vos refletir. E para que não descuideis alguma coisa por esquecimento,[51] seja lido em Comunidade uma vez por semana.

b) E onde reconhecerdes ter sido fiéis às suas prescrições, dai graças ao Senhor, dispensador de todo o bem.[52]

c) Onde, ao contrário, alguém se achar em falta, arrependa-se do passado, previna-se para o futuro, rogando a Deus que lhe perdoe a ofensa e não o deixe cair na tentação.[53]


[1] Cf. Jo 11,52

[2] Cf. Sl 67,7 (numeração da Vulgata)

[3] Cf. At 4,32

[4] Cf. 1Tm 6,8

[5] Cf. Cl 3,1-2.

[6] Cf. Gl 2,2.

[7] Cf. Tg 1,9-10.

[8] Cf. Sl 111,9; Lc 18,22; 1Cor 13,3.

[9] Cf. At 4,32.

[10] Cf. Rm 15,6; 12,10.

[11] Cf. 2Cor 6,16; 1Cor 3,16-17.

[12] Cf. Cl 4,2; Rm 12,12; Lc 18,1; At 1,14.

[13] Cf. Ef 5,19; Cl 3,16.

[14] Cf. 1Cor 9,27.

[15] Cf. Am 8,11; Mt 4,4.

[16] Cf. Sêneca, Cartas a Lucílio, 2,6.

[17] Cf. Eclo 11,4.

[18] Cf. Ef 5,3.

[19] Cf. Mt 5,28.

[20] Cf. Pr 24,12.18.

[21] Cf. Sl 94,7; Eclo 23,25-28 (18-19).

[22] Cf. Rm 2,4.

[23] Cf. Pr 24,18.

[24] Cf. 1Cor 3,16; 2Cor 6,16.

[25] Cf. Mt 18,15; Lv 19,17; Ez 3,16-21.

[26] Cf. Mt 18,15-17; Gl 6,1.

[27] Cf. 1Tm 5,20; Mt 18,16-17.

[28] Cf. 1Cor 5,2.13.

[29] Cf. 1Cor 5,6.

[30] Cf. At 4,35.

[31] Cf. 1Cor 3,3; 1,11; Fl 2,3-4.

[32] Cf. 1Cor 12,31; 13,8.3; Ef 3,19.

[33] Cf. At 4,32.35.

[34] Cf. 2Tm 2,24; Eclo 28,10.

[35] Cf. Ef 4,26 (= Sl 4,5).

[36] Cf. Mt 7,3-5.

[37] Cf. Eclo 29,9; Mt 7,21-26.

[38] Cf. Mt 6,12.14; Mc 11,25; Lc 11,4.

[39] Cf. Mt 18,35.

[40] Cf. Hb 13,17.

[41] Cf. Lc 10,16.

[42] Cf. Lc 22,25-26; Gl 5,13; Mc 10,44-45.

[43] Cf. Eclo 3,20.

[44] Cf. Tt 2,7.

[45] Cf. 1Ts 5,14.

[46] Cf. Hb 13,17.

[47] Cf. Eclo 30,23: "Tem misericórdia de tua alma para agradar a Deus" (Antiga tradução latina usada por Agostinho; idem Vulgata).

[48] Cf. Eclo 44,16.

[49] Cf. 2Cor 2,15; 1Pd 2,12; 3,16.

[50] Cf. Rm 6,14; 1Tm 1,9; 2Cor 3,17.

[51] Cf. Tg 1,23-25; Hb 12,5.

[52] Cf. Tg 1,17; 1Cor 4,7; 1Ts 5,18.

[53] Cf. Mt 6,12-13.

Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Entrevistas com Paul Johnson

Trechos das entrevistas concedidas por Paul Johnson ao jornalista Geneton Moraes Neto e a Revista "Veja"

GMN Qual foi o pecado capital do século XX?

Paul Johnson É o que chamo de relativismo moral : a negação de que haja valores absolutos. Acontece que há coisas que são absolutamente certas e outras que são absolutamente erradas, sim! O relativismo moral afirma – pelo contrário - que todo bem ou todo mal é relativo. Todos os valores seriam relativos, portanto.

Vejo o relativismo moral sob toda maldade totalitária e todo tipo de pecado do século XX. Precisamos voltar - acho que já estamos voltando - a cultivar valores absolutos.

GMN O senhor diz que já não há uma idéia absoluta sobre o que é errado e o que é certo. Pode dar um exemplo do que é certo e do que é errado, no mundo de hoje ?

Paul Johnson O exemplo mais comum é o da sexualidade humana. A maioria das pessoas da minha geração - que viveu a década de trinta - foi educada para acreditar que havia certos e errados absolutos na sexualidade humana. É um fato que o relativismo moral esconde e ofusca. Crianças de hoje não aprendem que há certos e errados! Aprendem que devem fazer o que os outros fazem. Isso é relativismo moral! É um grande mal. Devemos lutar contra ele.

GMN O senhor se declara um combatente na guerra das idéias. Qual foi a pior e a melhor idéia política do século XX?

Paul Johnson A pior idéia - que começou antes da Primeira Guerra,ainda por volta de 1910 - é a de que o Estado faz as coisas de uma maneira melhor do que os indivíduos. Mas há poucas coisas em que o Estado é melhor que o indivíduo. A verdade é que a idéia de que o Estado age bem é a pior de todas. Aprendemos agora esta lição. A melhor idéia é a seguinte: sempre que possível, os indivíduos devem ser deixados sós para fazerem o que puderem com os próprios recursos. Quanto maior a liberdade, maior a justiça, maior a eficiência e maior a felicidade humana.

O Brasil é um desses países que têm um futuro incrível. Chegará a esse futuro, dourado e glorioso, se acreditar mais em liberdade individual e menos no Estado.

GMN Por que o senhor diz que a mentalidade politicamente correta é uma nova forma de totalitarismo?

Paul Johnson Não gosto que venham me dizer como pensar,que palavras e expressões devo ou não usar. Para mim, esta é a origem do totalitarismo. Hoje,o totalitarismo vem começando de novo, no campus das universidades, nos Estados Unidos, sob o disfarce politicamente correto. Temos de lutar – muito! - contra este fenômeno, antes que o totalitarismo disfarçado de posições politicamente corretas se estabeleça de verdade.

GMN Quanto o senhor pagaria por um quadro de Picasso? Por que o senhor é tão rigoroso na hora de julgar mestres da arte moderna, como Picasso e Cézanne?

Paul Johnson A arte precisa ter um propósito moral. Acontece que nunca pude detectar qualquer propósito moral claro na obra de Picasso. Era um homem perverso e imoral. Não vejo,em nenhuma de suas obras, um esforço para mostrar a arte com um propósito moral. Tal esforço é a essência do grande artista. Então, desconsidero Picasso completamente.

GMN A obra mais famosa de Picasso, "Guernica", é uma denúncia contra a violência do totalitarismo. Por que é,então, que o senhor diz que não havia nenhum sentido moral na obra de Picasso?

Paul Johnson Porque Picasso não lutava contra o totalitarismo! Picasso não era comunista: era stalinista! Ficou do lado da União Soviética totalitária, durante quase toda a vida. É um escândalo! Não acreditava na liberdade, exceto para si próprio.

GMN O senhor diz que a religião aprendeu a absorver todos os impactos da ciência. Agora que até seres humanos podem ser criados em laboratório, o senhor acredita que a fé religiosa vai sobreviver?

Paul Johnson A rapidez no avanço da ciência, especialmente nas ciências da vida – aquelas que afetam os seres humanos – vem tornando a religião mais importante do que nunca. Porque, em cada estágio do avanço da ciência, devemos trazer Deus à discussão. Devemos dizer: "Isso é moral? É Justo? É algo que se encaixa no plano divino para a Humanidade? Ou é algo que vai contra ele?". O fator "Deus" na ciência é, hoje,mais importante do que nunca.

GMN O senhor consegue irritar as feministas e os esquerdistas com suas opiniões. Os dois são seus inimigos prediletos?

Paul Johnson Não sou,certamente,um inimigo das feministas. Sou pró-mulher : acredito que o século XXI será o século das mulheres. Dei palestras em Londres para milhares de senhoras japonesas : disse que elas têm o dever de tomar o poder que hoje parece disponível para elas no Japão – que era uma sociedade muito machista. Sou muito a favor das mulheres. Quanto à esquerda, não gosto de dividir pessoas em setores rígidos - esquerda e direita. Posso até dizer que sou radical - especialmente nas questões femininas,por exemplo. O meu ponto de vista é o de que todos os assuntos devem estar abertos à discussão. Não estou do lado da esquerda ou da direita : estou do lado da razão e da justiça.

Veja – O senhor escreveu que o desenvolvimento social e tecnológico humano não avançou tanto quanto poderia por causa da eterna batalha entre duas forças antagônicas do homem: sua criatividade e sua capacidade de crítica e destruição. Como assim?

Paul Johnson – Os seres humanos são naturalmente criativos. Amam criar. Também são apaixonados pela destruição e pela crítica. Acredito que todas as artes – sendo que considero formas de arte a política, o desenvolvimento tecnológico, econômico e social, assim como a pintura e a literatura – necessitam dessas duas forças antagônicas. É a tese, a antítese e a síntese. Mas é vital que a criatividade, a tese, supere seu adversário e vença, pois só ela pode garantir o progresso. Não tenho dúvida de que, se houvesse apenas a criatividade, a humanidade teria avançado muito mais rapidamente.

Veja – O senhor poderia citar exemplos de forças destrutivas que impediram um avanço maior da nossa civilização?

Paul Johnson – O exemplo mais primário disso é o marxismo. Marx compreendeu mal o capitalismo, foi desonesto com as evidências e sua contribuição para o mundo foi totalmente negativa. Graças a ele e a outros pensadores, por mais de um século muitos países perderam a chance de crescer economicamente. Seus povos deixaram de ter acesso à informação e à liberdade, fundamentais para o processo criativo, milhares de pessoas foram mortas injustamente e muito dinheiro foi jogado fora em vez de ser usado para a melhoria da qualidade de vida. Não há absolutamente nada a dizer em favor do marxismo.



Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Pacto de Metz

O Pacto de Metz teria sido um acordo, assinado em Metz, na França, entre a Igreja, representada pelo Cardeal Tisserant (que tinha junto consigo o então Cardeal Montini, futuro Paulo VI) e a URSS, através do Patriarca de Moscou, Nikodim, testa de ferro do regime comunista. Com a formalização desse pacto, ficaria acordado que a igreja cismática enviaria observadores ao Concílio e, em contrapartida, haveria total silêncio acerca do comunismo. Da mesma forma, com o mesmo espírito conspiratório, rumores afirmam que na verdade o Pacto de Metz não passou de uma invenção da KGB para denegrir a Igreja.

A excomunhão ao comunismo é reflexo do ateísmo e materialismo que fazem parte da essência dessa doutrina. Destarte, aqueles que se encaixam no decreto de S.S Pio XII são os que aderem ao marxismo enquanto concepção filosófica anti-cristã, revolucionária, anti-natural, totalitária etc, ou seja, apóstata. Como bem sabemos, a excomunhão latae sententiae se faz em casos de apostasia, heresia, cisma etc. Mesmo com a existência de tal pacto, nenhum dos envolvidos, João XXIII, Cardeal Tisserant, Cardeal Montini, tinham a intenção de criar um cisma, muito menos apostatar da fé. Era um acordo, assinado entre dois Sucessores dos Apóstolos, afinal Nikodim foi ordenado validamente, que tinha como objetivo o silêncio, não a defesa inconteste do comunismo ateu. Ainda vale lembrar que o Papa, enquanto supremo legislador eclesiástico, pode suprimir a lei temporariamente, quando achar oportuno. Ademais, a excomunhão é automática para os que aderem ao comunismo enquanto doutrina filosófica materialista e atéia, o que gera apostasia, daí a excomunhão latae sententiae. Quem se diz socialista, crendo que socialismo é justiça social, não cai em excomunhão automática. O que deve ser levado em questão não é a filiação nominal, mas a profundidade ideológica. Desse modo, o Concílio foi legítimo, tanto com o Beato João XXIII, de onde teria partido a ordem, e com Paulo VI, que teria participado do acordo ainda como Cardeal. Entretanto, é pertinente relembrar que há uma grande diferença entre assinar um documento defendendo o comunismo, com consciência da incongruência entre o materialismo dialético e o cristianismo, com total condescendência ao erro marxista, e um acordo que tinha como objetivo não relembrar as condenações ao comunismo no Concílio. Até porque, como o tal pacto envolveria diretamente um Papa, João XXIII, o mesmo que proibiu católicos de se aliarem a partidos e políticos comunistas, e dois Cardeais, é legítimo concluir que eles sabiam que mesmo com a omissão do comunismo no Vaticano II, isso em nada modificaria os anátemas já feitos, logo, mesmo com a existência do Pacto, não teriam a inocência de acreditar que esse silêncio revogaria anos de ensinamentos.

Dois pontos de grande relevância; o Concílio optou por utilizar um método positivo, sem anatemizar e recondenar o que já havia sido condenado. Ora, com pacto ou sem pacto, o Vaticano II não faria uma taxativa condenação ao comunismo, vale lembrar que milhares de instituições religiosas foram questionados sobre os assuntos que queriam que fossem abordados no Concílio; o comunismo nem apareceu na lista. Outra questão que não podemos nos esquecer, o Magistério da Igreja é contínuo, infalível nos seus ensinamentos, não se anula nem entra em contradição. O comunismo já via sido condenado desde o Beato Pio IX, logo, mesmo com o Concílio não relembrando a anatemização do materialismo dialético, este continuaria execrável. Mesmo existindo esse Pacto de Metz, esqueceram de avisar ao então Arcebispo de Cracóvia, Karol Józef Wojtyła, afinal, S.S João Paulo II, o Papa que colocou na prática o Concílio, era abertamente anticomunista e fez da derrubada dos regimes genocidas totalitários socialistas sua bandeira pessoal.

Não obstante, é pertinente recordar que o comunismo foi lembrado no Concílio e condenado, não da forma “syllabica” que alguns queriam, mas dentro da metodologia conciliar;

“O ateísmo moderno apresenta muitas vezes uma forma sistemática, a qual, prescindindo de outros motivos, leva o desejo de autonomia do homem a um tal grau que constitui um obstáculo a qualquer dependência com relação a Deus. Os que professam tal ateísmo, pretendem que a liberdade consiste em ser o homem o seu próprio fim, autor único e demiurgo da sua história; e pensam que isso é incompatível com o reconhecimento de um Senhor, autor e fim de todas as coisas; ou que, pelo menos, torna tal afirmação plenamente supérflua. O sentimento de poder que os progressos técnicos hodiernos deram ao homem pode favorecer esta doutrina.

Não se deve passar em silêncio, entre as formas actuais de ateísmo, aquela que espera a libertação do homem sobretudo da sua libertação económica. A esta, dizem, opõe-se por sua natureza a religião, na medida em que, dando ao homem a esperança duma enganosa vida futura, o afasta da construção da cidade terrena. Por isso, os que professam esta doutrina, quando alcançam o poder, atacam violentamente a religião, difundindo o ateísmo também por aqueles meios de pressão de que dispõe o poder público, sobretudo na educação da juventude.” (GS, 20) “Fiel quer a Deus e quer aos homens, a Igreja não pode deixar de reprovar com firmeza, como reprovou até agora, aquelas doutrinas e atividades perniciosas que contradizem à razão e à experiência humana universal e privam o homem de sua grandeza inata.” (GS, 21)

Com pacto ou sem pacto, nós nunca iremos saber se o Concílio condenaria nominalmente o comunismo. O tal acordo em Metz seria muito inócuo, afinal o Vaticano II escolhera uma metodologia positiva, ou seja, uma taxativa anatemização entraria em contradição com a própria organização conciliar. Sem o pacto, na concepção dos seus defensores, o Concílio faria uma concessão metodológica ao condenar o materialismo dialético. Não obstante, vale frisar, que mesmo com essa taxativa excomunhão, o desenrolar da história nos leva a crer que nada se modificaria na corrupção de partes do clero pela doutrina comunista, assim como a infiltração de agentes socializantes na Igreja. O ataque a institucionalização, a hierarquia, a estrutura clerical, se tornou a bandeira dos socialistas ditos cristãos. Ora, com a recordação dos anátemas, apenas se consolidaria o discurso dos defensores do materialismo, criando uma realidade bipolar, se melhor ou pior do que o a que se formou, não saberemos.

Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Pe. Nguyen Van Ly, um exemplo em defesa da liberdade

O Pe. Nguyen Van Ly é um Sacerdote que se mostra fiel aos ensinamentos da Igreja. Cresceu no Vietnã, país assolado pelo regime comunista, opositor da liberdade e da fé. Desde que foi ordenado, se comprometendo em seguir o Magistério, iniciou uma empreitada apostolar pessoal; o combate ao totalitarismo genocida socialista. Nessa luta contra Hanói, foi condenado a 8 anos de prisão, em março desse ano, depois de ter sido acusado de fazer "propaganda contra o regime comunista".

O Sacerdote vietnamita promovia e se engajava pela instauração da democracia. Criou com isso o “bloco 8406", com dois mil adeptos. Foi acusado de apoiar grupos vistos como ilegais pela ditadura marxista, como o Partido Progressista do Vietnã. Todas as suas condenações giravam em torno da defesa da liberdade, da moral, da ética, valores diametralmente opostos aos defendidos pelo marxismo ateu. A liderença vietnamita, em seu combate ao cristianismo, chegou a ponto de garantir água potável, bem raro num país assolado e destruído, a todos os cidadãos que apostatassem da fé em Cristo. "Em muitas aldeias, são negados aos cristãos o acesso a poços locais. Muitos estão em necessidade desesperada de beber água potável, principalmente os missionários”, afirmou uma fonte anônima de ajuda a Igreja.

Baseado na fé, Pe. Nguyen Van Ly combate o comunismo e todas as suas atrozes ações. Exemplo para religiosos brasileiros que apóiam a metodologia marxista, condenada pelo Magistério, desconhecendo a realidade do clero venezuelano, vietnamita, cambojano, chinês, das nações que seguem a cartilha vermelha.

A polícia do Vietnã prendeu os dissidentes do regime, incluindo Pe. Nguyen Van Ly e outros defensores do verdadeiro direitos humanos. O Sacerdote já havia ficado 14 anos na prisão pelos mesmos motivos nobres e valorosos. O juiz Bui Quoc Hiep afirmou; "O comportamento dos acusados equivale a propaganda contra o Estado socialista". Na moral cristã, lutar contra o comunismo não é crime, mas dever de todo homem que busca viver sinceramente e piedosamente.

No Vietnã existe a política de "Crenças e Organizações Religiosas", que combate a fé e se opõem aos ensinamentos da religião, repudiada pelo Estado. Os líderes religiosos ainda são obrigados a acatarem os preceitos da “unidade nacional”, educando as crianças na doutrinação marxista, o que é obviamente rechaçado pelo clero católico vietnamita.

Pe. Nguyen Van Ly combate e continuará combatendo o regime comunista, se alicerçando na DSI e na moral católica, que repudia a metodologia marxista e a violência que ela gera. O Vietnã já produziu um santo homem, François-Xavier Cardeal Nguyên Van Thuân, em processo de canonização, que também sofreu pela fé, sendo preso e torturado pelos comunistas. No cárcere conseguiu vivenciar de maneira singular o amor em Cristo, e desse amadurecimento vieram palavras tão confortantes, e que hoje, com certeza, se encaixam perfeitamente nos sofrimentos que Pe. Nguyen Van Ly padece; “Vinham-me à mente muitos pensamentos confusos: tristeza, abandono, cansaço depois de três meses de tensões... Porém, em minha mente surgiu claramente uma palavra que dispersou toda a escuridão, a palavra que Monsenhor John Walsh, Bispo missionário na China, pronunciou quando foi libertado depois de doze anos de cativeiro: ‘Passei a metade da minha vida esperando’. É verdadeiríssimo: todos os prisioneiros, inclusive eu, esperam a cada minuto sua libertação. Porém, depois decidi: ‘Eu não esperarei. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor.”

O regime comunista tenta calá-lo


Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Catolicismo, protestantismo e capitalismo

Retirado do Instituto von Mises Brasil

Por Murray N. Rothbard

Em 8 de agosto de 1957, Murray N. Rothbard escreveu para Richard C. Cornuelle, do Volker Fund, recomendando incisivamente as pesquisas de Emil Kauder sobre as bases aristotélicas da utilidade marginal e da teoria econômica austríaca (Ensaios de Rothbard). Em um memorando de fevereiro de 1957, "Catolicismo, protestantismo e capitalismo", reproduzido abaixo, Rothbard apresenta algumas idéias sobre essas questões. O texto de Rothbard revela um precoce e aguçado interesse em relação à história do pensamento econômico. Os memorandos que ele escreveu para o Volker Fund, do início dos anos 1950 até 1962, presentes em uma grande variedade de livros e periódicos eruditos, mostram seu crescente conhecimento do assunto. Além disso, seu orientador de dissertação, o Professor Joseph Dorfman, era uma autoridade em história do pensamento econômico americano, e Rothbard estava muito interessado nas, dentre outras questões, contribuições americanas para os debates monetários no início do século XIX. Rothbard, que era tanto um historiador como um economista, estava bem posicionado, não só para avaliar livros para o Volker Fund, mas também para dominar e sintetizar as doutrinas econômicas de uma maneira lógica e com uma perspectiva histórica. Sua última grande obra publicada, History of Economic Thought (1995), em dois volumes, certamente serve como prova disso. ~ Joseph Stromberg

Nos últimos anos, um grupo de estudiosos (sendo que a maioria deles poderia ser chamada de "católicos de direita") decidiu revisar a interpretação padrão sobre a ascensão da economia e do capitalismo. Essa interpretação padrão diz que tanto o pensamento econômico como as políticas econômicas laissez-faire, que estimularam o capitalismo, desenvolveram-se como fruto de uma rejeição aos grilhões do catolicismo medieval. O espírito moderno das pesquisas científicas derrotou o dogmatismo escolástico e permitiu o surgimento de um espírito largamente individualista e racional; a rejeição à autoridade da Igreja levou a um individualismo generalizado em todos os campos; a ética e o espírito calvinista, que enfatizava o valor positivo do trabalho árduo, da parcimônia, e da ação de ganhar dinheiro, levou ao florescimento do capitalismo, ao passo que os católicos reprovavam solenemente esta ação de ganhar dinheiro. E, por fim, a interpretação padrão diz ainda que a economia laissez-faire cresceu apenas na atmosfera protestante da Grã-Bretanha (Adam Smith, etc.)

Entretanto, há um outro lado da moeda, e interpretações divergentes, particularmente nas áreas da filosofia política (o direito natural, por exemplo) e do pensamento econômico, têm surgido nos últimos anos. Para fins de leitura sobre essa Nova Escola, eu sugeriria: Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis (Nova York, 1954), especialmente as páginas 73-142; Marjorie Grice-Hutchinson, The School of Salamanca (Oxford, 1952); Emil Kauder, "Genesis of the Marginal Utility Theory," Economic Journal (Setembro de 1953); Kauder, "Retarded Acceptance of the Marginal Utility Theory," Quarterly Journal of Economics (Novembro de 1953), e "Comment" (Agosto de 1955); e Raymond de Roover, "Scholastic Economics: Survival and Lasting Influence from the 16th Century to Adam Smith," Quarterly Journal of Economics (Maio de 1955).

Esses revisionistas pouco fizeram diretamente contra um dos alicerces da abordagem tradicional - A Ética Protestante, de Max Weber - mas fizeram muito por vias indiretas. Recomenda-se as críticas à Weber feitas por H. M. Robertson, Aspects of Economic Individualism (Londres, 1933). Robertson e outros mostraram, por exemplo, que o capitalismo realmente começou a prosperar, não na Grã-Bretanha, mas nas cidades italianas do século XIV, ou seja, em áreas decididamente católicas. De fato, o ponto principal da crítica revisionista, em todas as áreas, é a coesão das idéias - que o capitalismo, o liberalismo, o racionalismo, o pensamento econômico, etc. começaram bem antes de Smith et al., e sob auspícios católicos; e que os desenvolvimentos posteriores se baseavam em - e em alguns casos retrocediam de - posições católicas anteriores.

Emil Kauder, de fato, joga a tese de Weber[1] contra seus próprios seguidores ao atacar Smith e Ricardo, acusando-os de terem sido influenciados pelo protestantismo ao desenvolverem a "teoria do valor-trabalho". Schumpeter também se inclinava para essa direção. A força dessa nova e importante tese é a seguinte: ao invés de dizer que Hume e Smith desenvolveram a teoria econômica quase que partindo do zero, mostra-se que a ciência econômica começou a ser realmente desenvolvida, lenta porém seguramente, ao longo dos séculos, pelos escolásticos e por católicos italianos e franceses que foram influenciados pelos escolásticos; que a abordagem econômica feita por eles era, de maneira geral, metodologicamente individualista, e enfatizava a teoria da utilidade, a soberania do consumidor e as precificações via mercado, e que Smith acabou atrasando o pensamento econômico ao injetar a doutrina puramente britânica da teoria do valor-trabalho, jogando dessa forma a ciência econômica para fora dos trilhos por cem anos. Nesse ponto, posso acrescentar que a teoria do valor-trabalho gerou muitas conseqüências nefastas. Ela, é claro, pavimentou o caminho, de maneira lógica, para Marx. Além disso, sua ênfase na tese de que "custos determinam os preços" estimulou a idéia de que são os empresários ou os sindicatos que aumentam determinantemente os preços, e não a inflação da oferta monetária feita pelo governo. E, ademais, a ênfase em "valor objetivo e inerente" dos bens levou a tentativas "cientificistas" de se mensurar valores, estabilizá-los através de manipulações governamentais, etc.

A interessante tese de Kauder está dividida em duas partes: uma, que diz que o relato acima representa o curso histórico dos eventos no pensamento econômico; e a outra, que diz que a razão para o esquecimento da teoria da utilidade e sua conseqüente substituição por uma teoria de custo-trabalho foi influenciada pelo protestantismo, em oposição ao espírito católico.

Kauder afirma, primeiramente, que a teoria da utilidade foi desenvolvida em grande escala primeiro por Aristóteles, e depois pelos escolásticos, particularmente os negligenciados escolásticos espanhóis de fins do século XVI e começo do século XVII. A maioria dos historiadores tem ignorado esses escolásticos tardios e sua influência, ao menos até recentemente. A idéia dominante é a de que os escolásticos desapareceram junto com a Idade Média, e o intervalo de tempo entre esse período e o atual foi preenchido apenas pelos mercantilistas. Os mercantilistas, no entanto, eram estatistas panfletários sempre que julgavam conveniente, e contribuíram menos para a economia e para o liberalismo do que os escolásticos tardios. (Ver DeRoover)

A ênfase aos valores subjetivos dos indivíduos e da utilidade também foi continuada pelos grandes filósofos políticos protestantes (Hugo) Grócio e (Samuel) Pufendorf, que foram diretamente influenciados pelos escolásticos espanhóis (e também, como veremos abaixo, no campo do direito natural), e pelos economistas italianos de Volterra (meados do século XVI), Davanzatti (fins do século XVI), Montanari (Fins do século XVII), e principalmente Galiani (por volta de 1750). A teoria foi posteriormente desenvolvida por Turgot e Condillac, católicos franceses (meados do século XVIII). Na época destes três últimos, Kauder afirma que o "paradoxo do valor" (ouro vs. ferro) havia sido resolvido pela teoria da utilidade desenvolvida por eles. No entanto, a dupla Smith-Ricardo jogou fora a conclusão e restabeleceu o problema do paradoxo do valor. (Posso acrescentar que a resultante abordagem holística feita por Smith e Ricardo era sutilmente socialista, uma espécie de quarta via: ela estabeleceu o costume de se separar a Distribuição da Produção, e de se falar apenas em grupos de fatores, e não em fatores individuais - ou seja, trabalho ao invés de trabalhadores).

E Kauder vai em frente e mostra que os teóricos do valor e utilidade subjetivos eram católicos franco-italianos, enquanto que os teóricos do valor-trabalho - Petty, Locke e Smith - eram protestantes britânicos. Kauder atribui esse fato precisamente à ênfase calvinista na divindade do trabalho, em contraposição ao pensamento católico, que considerava o trabalho apenas como um meio de ganhar a vida. Os escolásticos, então, estavam livres para concluir que o "preço justo" era essencialmente o preço competitivo definido pelo mercado, ao passo que os britânicos, influenciados pelos protestantes, tinham a dizer apenas que o preço justo é o preço "natural" em que "a quantidade de trabalho trocada por cada bem é a mesma". Já De Roover mostra que ambos os escolásticos tardios espanhóis Domingo de Soto e Luis de Molina denunciaram como falaciosa a máxima do beato (John) Duns Scot, que dizia que o preço justo é igual ao custo de produção mais um lucro razoável. É fato que Smith e Locke foram influenciados tanto pela corrente escolástica, que eles adquiriram através de seus treinamentos filosóficos, como pela ênfase calvinista na divindade do trabalho. Também é verdade que Smith acreditava que a livre concorrência eventualmente levaria os preços de mercado para perto do "preço justo", mas é evidente que um perigo já havia sido introduzido - perigo esse que foi totalmente explorado por Marx (e que, de fato, ainda perdura nas teorias de concorrência imperfeita, que são similares à crença em algum mundo mais justo onde reinam os preços "naturais" e "ótimos"). Por outro lado, os discípulos de São Tomás de Aquino, os tomistas, sempre centraram seus estudos econômicos no consumidor, considerando-o a "causa final" aristotélica do sistema econômico, e que o objetivo final do consumidor é a "moderada busca pelo prazer". Já no século XIX, diz Kauder, as influências religiosas sobre o pensamento econômico não eram importante. No entanto, ele aponta a importância das estritas raízes evangélicas de Alfred Marshall. O pai de Marshall era um evangélico rigoroso, e os evangélicos eram severos calvinistas-revivalistas. Talvez seja por isso que Marshall resistiu à teoria da utilidade, e insistiu em reter ao máximo a teoria ricardiana do custo, a qual perdura até hoje como resultado.

Contudo, gostaria de adicionar alguns comentários. Os mais "dogmáticos" adeptos do laissez-faire no século XIX não foram os economistas britânicos, mas sim os economistas (católicos) franceses. Bastiat, Molinari, etc. foram muito mais rigorosos do que os sempre pragmáticos liberais ingleses. Ademais, a fina-flor da teoria laissez-faire foi desenvolvida pelos católicos fisiocratas, que foram influenciados diretamente pelo conceito das leis e dos direitos naturais.

E isso me leva à segunda grande influência dos católicos escolásticos - a teoria das leis e dos direitos naturais. Certamente o direito natural era um grande obstáculo ao absolutismo estatal, e começou com o pensamento católico. Schumpeter mostrou que o direito divino dos reis era uma teoria protestante. A teoria das leis e dos direitos naturais também fluiu dos escolásticos até os filósofos morais franceses e britânicos. A conexão foi obscurecida pelo fato de que muitos dos racionalistas do século XVIII, sendo amargamente anti-catolicismo, se recusaram a reconhecer seu débito intelectual para com os pensadores católicos. Schumpeter, de fato, afirma que o individualismo começou com o pensamento católico. Assim: "a sociedade foi tratada (por Santo Tomás de Aquino) como uma questão completamente humana, e mais ainda, como uma mera aglomeração de indivíduos que ocorre por causa de suas necessidades mundanas... o poder do monarca derivava-se do povo... por delegação. O povo é soberano e um monarca indigno poderia ser deposto. Duns Scot chegou ainda mais perto de adotar uma teoria do contrato social do estado. Este... argumento é notavelmente individualista, utilitarista e racionalista ..."[2] Schumpeter também enfatiza a defesa da propriedade privada feita por Tomás de Aquino e menciona em particular o espírito anti-estatizante do escolástico Juan de Mariana, 1599. Ainda sobre eles, Schumpeter também fala sobre a adoção do preço de mercado como sendo essencialmente o preço justo, a teoria da utilidade, o valor subjetivo, etc. Ele diz que, enquanto Aristóteles e Scot acreditavam que o preço normal de concorrência era o preço justo, os escolásticos tardios espanhóis identificavam os preços de mercado com qualquer preço concorrencial, como no caso de Luis de Molina. Eles também tinham uma teoria para o padrão-ouro, e se opunham ao enfraquecimento da moeda. Schumpeter ainda diz que de Lugo desenvolveu uma teoria sobre os riscos dos lucros empresariais, a qual, é claro, só foi completamente desenvolvida na virada do século XX e depois.[3]

Apesar de que a teoria dos direitos naturais, do século XVIII, era muito mais individualista e libertária do que a versão escolástica, há definitivamente uma continuidade. O mesmo vale para o Racionalismo, sendo a razão o principal artifício usado por Tomás de Aquino, e sendo essa mesma razão combatida pelos protestantes, que colocavam suas ideologias - e sua ética - em uma base mais emocional, encarando-a como sendo uma Revelação direta.

Podemos resumir o Argumento pelo Catolicismo da seguinte maneira: (1) o laissez-faire de Smith e as idéias do direito natural advêm dos escolásticos tardios e dos fisiocratas católicos; (2) os católicos desenvolveram a utilidade marginal, a economia do valor subjetivo e a idéia de que o preço justo era o preço de mercado, ao passo que os protestantes britânicos desenvolveram uma perigosa e altamente estatista teoria do valor-trabalho, influenciados pelo calvinismo; (3) alguns dos mais "dogmáticos" teóricos do laissez-faire foram católicos: desde os fisiocratas até Bastiat; (4) o capitalismo começou nas cidades italianas católicas do século XIV; (5) direitos naturais e outras visões racionalistas descenderam dos escolásticos.

Também recomendaria, como um exemplo um tanto assustador de como uma influência protestante-calvinista pode levar a uma filosofia de socialismo altruísta, a leitura do ensaio "T. H. Green and His Audience: Liberalism as a Surrogate Faith", Review of Politics (Outubro, 1956), de Melvin Richter.

Conquanto seja algo tangente a este memorando em particular, também recomendaria fortemente Erik von Kuehnelt-Leddihn, Liberty or Equality (Caldwell, Id., 1952), sendo que o ponto principal do livro é a tese de que o catolicismo promove um espírito libertário (ainda que "anti-democrático"), ao passo que o protestantismo promove o socialismo, o totalitarismo e o espírito coletivista. Um exemplo é a afirmação de Kuehnelt-Leddihn de que a crença católica na razão e na verdade tende ao "extremismo" e ao "radicalismo", enquanto a ênfase protestante na intuição leva a uma crença em concessões, em pesquisas de opinião, etc.

A opinião do Professor von Mises sobre a tese de Max Weber deve ser mencionada: Weber inverteu o verdadeiro padrão causal, isto é, que o capitalismo veio primeiro e que os calvinistas adaptaram seus ensinamentos à crescente influência da burguesia. Weber relatou que os fatos ocorreram em ordem contrária.

Não estou preparado para dizer que a causa protestante deve ser descartada completamente e que a visão católica deve ser adotada completamente. Mas parece evidente que a história é bem mais complexa do que a versão padrão nos faz crer. Certamente, os Revisionistas oferecem uma excelente corretiva[4]. Quanto às questões específicas sobre a teoria da utilidade e Adam Smith, posso fazer um endosso aos revisionistas. Por muito tempo tenho sentido que Adam Smith tem sido consideravelmente sobreestimado como sendo um inflexível adepto do laissez-faire.

__________________

Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.

Notas (todas fornecidas pelo editor)

[1]. Consulte Randall Collins, um sociólogo weberiano, que também inverteu a tese de Weber ao mesmo tempo em que usava os métodos de reconstrução histórica do prórpio Max Weber; ver Weberian Sociological Theory (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1986), onde Collins escreve: "A cristandade foi a principal revolução weberiana, que criou as formas institucionais pelas quais o capitalismo pôde surgir. A reforma Protestante representou apenas uma crise particular ao fim de um ciclo de longo prazo; ela deu início a um segundo movimento, que nós erroneamente vemos como sendo o primeiro." (pág. 76)

[2]. Joseph A. Schumpeter, History of Economic Analysis (Nova York: Oxford University Press, 1954) pp. 91-92.

[3]. Ver principalmente, Alejandro A. Chafuen, Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics (Lanham, MD: Lexington Books, 2003).

[4]. Rothbard mais tarde desenvolveu essa linha de ataque em grandes detalhes; ver Murray N. Rothbard, Economic Thought Before Adam Smith: An Austrian Perspective on the History of Economic Thought, I (Cheltenham, UK: Edward Elgar, 1995), p. 31-175.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

Teologia da Libertação, Revolução e Aborto

“O sistema marxista, onde governou, não só deixou uma triste herança de destruições econômicas e ecológicas,
mas também uma dolorosa destruição do espírito.”
(S.S Bento XVI)

Hoje se tornou comum encontrar católicos e religiosos que se opõem abertamente aos ensinamentos da Igreja. Diferentemente do que se pensa, ou pelo menos do que se pretende, a defesa de ideologias marxistas, assim como o empenho na legalização do aborto, não é uma mera desavença de pensamentos com o Magistério, mas uma rebeldia de matéria gravíssima, que se coloca contra o pastoreio da Esposa de Cristo.

Os partidos de esquerda não mais levantam a bandeira comunista abertamente. Atualmente lançam mão de meios escusos, mas já coroados no desenrolar da história marxista. Antonio Gramsci, teórico comunista italiano, concluiu que para haver o triunfo revolucionário no Ocidente seria necessária a implantação de novas estruturas que substituiriam as “velhas” e “antigas”: a filosofia grega, o direito romano, e por fim, a moral cristã. As armas, os golpes e as tomadas de poder, tornaram-se cenas do passado. A esquerda se converteu piedosamente a cartilha do “guru marxista”, a palavra de ordem passou a ser aborto, desarmamento civil, feminismo, gayzismo, criminalização da moral religiosa.

A Europa, que há décadas convive com a hegemonia política de partidos de esquerda, hoje se depara com uma população descrente, um continente onde a esmagadora maioria das nações descriminalizaram o aborto, boa parte a eutanásia, e ainda muitas cogitam a possibilidade da liberação das drogas, como na “progressista” Holanda. Igrejas vazias, transformadas em hotéis, cassinos, bares, virou uma cena relativamente comum no Velho Continente.

Na América Latina, que tem uma população significativamente mais piedosa, a situação é mais complexa, mas nem por isso mais amena. Hoje, na América do Sul, apenas a Colômbia e Peru não têm governos de esquerda, nas outras nações os partidos governistas se esforçam para a implementação da revolução, não mais com a necessidade de armas, mas pela imposição de uma amoral ateísta, mascarada de laicismo, a toda a sociedade crente. No católico México, país dos cristeros, o aborto foi liberado mesmo com a oposição dos homens e mulheres de bem. A Igreja mexicana teve um papel importante ao lembrar da excomunhão automática aos católicos que praticam e compactuam com o aborto, “Cânone 1398 Quem procurar o aborto seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae”. No Brasil, o PT no seu III Congresso confirmou como proposta de partido a liberação do aborto e o “casamento” homossexual.

Existe um grande arcabouço lógico que confirma a impossibilidade de um verdadeiro católico se envolver com partidos de esquerda. O primeiro motivo é a defesa e utilização da metodologia marxista. S.S Pio XI, na Quadragesimo Anno, diz que; "Socialismo religioso, socialismo cristão, são termos contraditórios: ninguém pode ao mesmo tempo ser bom católico e socialista verdadeiro". O repúdio do Magistério ao comunismo é ratificado por todos os Papas contemporâneos, de Beato Pio IX até Bento XVI, essa elucidação goza do peso dos ensinamentos magisteriais ordinários, os que são intrinsecamente necessários de serem seguidos pelos católicos. Reflexo da própria natureza revolucionária marxista, fundamentada na teoria gramsciana, o aborto tornou-se bandeira comum nos partidos esquerdistas, fornecendo um segundo motivo para que não haja apoio mútuo entre católicos e socialistas. Em ambos as situações, a defesa do marxismo e do aborto, a Igreja ensina que se enquadra a excomunhão; latae sententiae, automática, para o caso da interrupção da gravidez, explicado no Código de Direito Canônico sobredito, e speciali modo, reservada a Sé Apostólica, em relação ao comunismo, como foi mostrado no Decretum Contra Communismum de S.S Pio XII; “Se os fiéis de Cristo, que declaram abertamente a doutrina materialista e anticristã dos comunistas, e, principalmente, a defendam ou a propagam, "ipso facto" caem em excomunhão ("speciali modo") reservada à Sé Apostólica? R: Afirmativo”.

O pensamento marxista encontrou uma grande aliada na disseminação da semente revolucionária na sociedade, a teologia herética formada na Europa na década de 60. Essa linha, exportada para a América Latina, se encontrou com uma realidade social amarga, que por sua vez era acompanhada do discurso socialista. A junção do que até então parecia (e é) oposto, deu luz a teologia da libertação, que nas palavras do próprio Genésio Boff no Jornal do Brasil “não é Teologia dentro do marxismo, mas marxismo (materialismo histórico) dentro da Teologia".

Fruto do próprio pensamento marxista, os grandes nomes dessa “teologia” iniciaram um audacioso projeto no continente, a deformação de todos os ensinamentos da Igreja. Com a corrupção de muitos seminários e noviciados, gerações e mais gerações de religiosos passaram a ser educados na linha heterodoxa dos “libertadores”. Naturalmente, como a “filha pródiga” do esquerdismo latino-americano, não demorou em corromper o que até então era (e ainda é, e continuará sendo) intrínseco ao catolicismo. Usando o discurso relativista, passou a atacar a sacralidade litúrgica, a fidelidade ao Magistério, e iniciou o projeto de defesa do aborto, casamento homossexual, etc.

A teologia da libertação absolutizou a necessidade do seguimento das “doutrinas” petistas em substituição aos ensinamentos emanados da Sé Apostólica. O “teelismo” criou católicos que não mais lutavam e se engajavam na conversão dos inimigos, mas que se convertiam às propostas destes, mesmo que para isso tivessem que repudiar aos próprios preceitos da fé. Há pouco tempo foi nacionalmente visível a presença da semente marxista plantada em setores da Igreja. O “grito dos excluídos”, que tem apoio de certos grupos da CNBB, surgiu em favor dos desfavorecidos e mais necessitados, desde os seus primórdios foi corrompido pela ideologia marxista, e no movimento desse ano, atingiu possivelmente o auge do seu descaso com a fé cristã católica. Contou com a “participação” cooperativa de ONGs que defendem a legalização do aborto, como a “Católicas pelo direito de decidir”. Essa organização, que tem como presidente Kissling, se lançou abertamente numa guerra contra a moral católica:

“O argumento dos bispos diz que o aborto é um assassinato, que abortar é matar e que a vida começa na concepção. Mas esta perspectiva católica é o lugar certo onde começar o trabalho, porque a posição católica é a mais desenvolvida. Assim, se você puder refutar a posição católica, você refutou todas as demais. Nenhum dos outros grupos religiosos realmente têm declarações tão bem definidas sobre a personalidade, quando a vida começa, fetos e etc. Assim, se você derrubar a posição católica, você ganha".

É perceptível que esse hediondo projeto gerou um sucesso até mais eficaz do que o pretendido pela presidente da ONG. Em terras brasileiras, a moral católica não foi derrubada, mas certos grupos se converteram a amoralidade marxista (ou no mínimo andam com aqueles que defendem...”Quem anda com porcos farelo come”)! O resultado é mais benéfico, reflete na criação de uma “nova mentalidade”, relativizando a própria perenidade da Igreja.

No Brasil, cada vez mais vemos comportamentos e atitudes do arcabouço comunista passando a fazer parte do comportamento “politicamente correto” do cidadão comum. Não é perceptível a “olho nu” o alto grau de infiltração marxista na sociedade que toma todos os setores do Estado e da vida dos homens e mulheres do país. A própria teologia da libertação, condenada pela Igreja no documento da Congregação para a Doutrina da Fé Libertatis Nuntius como “uma interpretação inovadora do conteúdo da fé e da existência cristã, interpretação que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma negação prática dessa fé.”, fincou na nação as bases de uma estrutura bem sólida e concisa. Atualmente, graças à conscientização dos católicos acerca dos erros defendidos pelo “teelismo”, e a ação de clérigos ortodoxos e piedosos, a renovação da teologia da libertação não é tão ampla. Os seus grandes nomes estão entrando na história ou nas sombras, o que facilita a ascensão de nomes fiéis à sã doutrina.

O que se faz necessário é o despertar dos católicos. A necessidade de perceber a perversa realidade plantada pelo esquerdismo, assim como os caminhos tortuosos mostrados pela teologia da libertação, a “filha pródiga” do marxismo latino-americano.

Não dormimos com o inimigo, mas rezamos por ele!

Pedro, a Pedra

É sabido que os cismáticos nutrem uma tenra aversão ao catolicismo romano, provavelmente porque reconhecem por dentro que a Igreja encabeçada por Roma tem aquilo que eles nunca terão; a integralidade da fé cristã. Com isso, muitos bizantinos ressentidos se lançam numa cruzada, por mais latina e católica que ela seja, em combate a pureza da Esposa de Cristo.

Aqui mesmo eu publiquei uma tradução livre que fiz de ditos de Santos e Patriarcas Orientais que endossam o papado e sua supremacia, soando bem diferente da primazia de honra que os cismáticos tanto defendem. Será que algum bizantino teria a coragem de lançar anátemas a São Máximo o Confessor, um dos Padres mais exaltados pelos orientais, por ter dito que “sem medo, mas com toda a confiança sagrada e conveniente, aqueles ministros (os Papas) são da rocha realmente firme e imóvel, que é da Igreja mais grandiosa e Apostólica de Roma." (Santo. Maximus, em JB Mansi editor Amplissima Collectio Conciliorum, volume 10), ou então a São Teodoro Estudita, chefe do mais importante Mosteiro de Constantinopla, que escrevendo a São Leão Magno disse; “oh mais divina Cabeça das Cabeças, o Chefe Pastor da Igreja do Céu." (Santo. Theodore, Reserve I, Epístola 23)”. O que não faltam são citações que confirmam a universalidade e supremacia de Roma, mas que combatidas de maneira mesquinha por ardilosos religiosos orientais, fomentou o cisma. Fócio, que é santo lá por aquelas bandas, e um dos grandes responsáveis pela queda dos bizantinos, escreveu ao Papa; “Se mandares venerar o meu nome numa só igreja de Roma, eu me comprometo a mandar venerar o teu em todo o universo’’, provavelmente não sabia que essa sua presunção nada cristã o daria a “santidade” e a alcunha de “o Grande”. Realmente, só se for padroeiro da picaretagem.

Os cismáticos deformam a promessa de Cristo feita a São Pedro. Eles a interpretam dizendo que a Pedra não era Pedro, mas sim sua fé. Um grande erro, Pedro é a Pedra, só que esta procede de Cristo. Pedro não é pedra por si só, mas em função de Cristo e de sua fé ortodoxa, a qual sempre está no Príncipe dos Apóstolos, a fim de que confirme seus irmãos.

Falar que Cristo é Rocha, que Pedro é feito pedra em função da fé em Cristo não tira em nada o entendimento que Pedro é a pedra sobre a qual é edificada a Igreja, em função de Cristo e não de si mesmo. Alguns chegam ao extremo, utilizando teses protestantes para afirmar que o termo usado por Nosso Senhor para designar Simão não era o mesmo que Ele utilizou para chamar a Pedra.

São João Crisóstomo, considerado pelos cismáticos o maior Padre da Igreja, ajuda a colocar um ponto final nessa questão. Ele diz:

Jesus disse [a Pedro] ‘Alimenta minhas ovelhas’. "Por que Jesus não leva em conta os demais Apóstolos e fala do rebanho somente a Pedro? "Porque ele foi escolhido entre os Apóstolos, ele foi a boca de seus discípulos, o líder do coro. Foi por essa razão que Paulo foi procurar a Pedro antes que os demais. E também o Senhor fez isso para demonstrar que ele devia ter confiança uma vez que a negação de Pedro havia sido perdoada. Jesus lhe confia o governo sobre seus irmãos... Se alguém perguntar "Por que então foi Santiago quem recebeu a Sé de Jerusalém?", eu lhe responderia que Pedro foi constituído mestre não de uma Sé, mas do mundo todo” (Homilia 88 (87) in Joannem, I. Cf. Orígenes, “In epis. Ad Rom.”, 5, 10; Efrém da Síria “Humn. In B. Petr.”, en “Bibl.Orient. Assema.)

Eles poderiam rebater citando por exemplo São Cipriano de Cartago, que disse; “Este Trono de Pedro é mantido por todo episcopado, de modo que cada bispo é sucessor de Pedro” (mesmo santo que escreveu; "A cátedra de Roma é a cátedra de Pedro, a Igreja principal, de onde se origina a unidade sacerdotal" (Cipriano, +258, Epístola 55,14), o que confirma o fato de que é a interpretação obtusa dos cismáticos que deforma o conteúdo patrístico), ora, aí eles entram num erro de interpretação. São João Crisóstomo é claro, ele se refere especificamente a Pedro e a promessa feita por Cristo, frisando a relevância do Príncipe dos Apóstolos perante os outros irmãos. Tão ilustre Padre grego ainda salienta a supremacia de Pedro e a universalidade de seu primado, que mesmo não se localizando em Jerusalém, Sé Apostólica chamada de "Mãe de todas as Igrejas", tem sua maestria fincada em todo o mundo.

Foi a falta de humildade de certos religiosos orientais que deu início ao cisma do oriente, e hoje, o mesmo déficit persiste em estender suas influências nas mentes cismáticas.